Acordei como todos os dias, com uma tremenda dor nas costas.
Eu nunca consegui entender como e porque eu acordo dolorido e com a sensação de
que não estive dormindo, apenas anestesiado.
Fui colocar as coisas dentro da mochila para sair e não me
esqueci dos cadernos de anotações, uma caneta preta, minha flauta, a câmera e,
por algum motivo, eu peguei a minha lanterna.
Celular no bolso, mochila nas costas e parti para aproveitar
o meu sábado de tarde clara.
Fui até a cidade vizinha, andei por todas as ruas que
consegui até que percebi as nuvens se tornando cada vez mais escuras e
ameaçadoras, então, fui embora.
Já à noite e na cidade, encontrei meu amigo numa praça e
subimos juntos ao supermercado, para comer e fugir da chuva que vinha sem
piedade.
A chuva começou a cair fraca, no começo, e aumentou
gradativamente – então meu amigo foi embora, pois seu pai veio o buscar no
mercado e eu esperei a chuva passar para, enfim, ir embora. Mas ela não dava trégua,
as rajadas de vento ficavam cada vez mais fortes e a água machucava os
corajosos que se aventuravam a céu aberto.
Todos nós, uma multidão de desconhecidos, apertados uns
contra os outros no hall desse mercado e então que tudo de apagou, e fez-se silêncio
absoluto.
Luz! Voltou, e junto dela as vozes e o alarme, alto e em bom
som – algo não está certo.
A chuva ainda martelava o telhado quando a luz dos postes
também foi voltando aos poucos, e também quando tudo ficou escuro mais uma vez.
Houve silêncio, tumular, seguido de um grande estrondo no
transformador de um poste.
Clarão, no céu, na rua, no mercado – todos hipnotizados – e depois
gritaria e correria para dentro do mercado, no mesmo momento em que fui
empurrado para fora com mais algumas pessoas. Corremos e acabamos ficando na
linha de frente das dezenas de pessoas com expressões apavoradas.
As luzes dos geradores se acenderam e, ao olhar para trás,
vi a multidão de olhos arregalados e crianças que choravam, como se fosse a
fila do abatedouro e pressentíssemos o fim da linha. E então as luzes voltaram.
O caos instaurou-se na cidade: Estávamos com postes sem luz,
áreas inteiras da cidade na completa escuridão e, como se não bastasse, os semáforos
pararam, causando um caos no trânsito em frente ao lugar onde estávamos.
Relatei cada acontecimento ao meu amigo, enviando mensagens com
o celular, que perdia o sinal com ainda mais facilidade.
Liguei para o meu pai.
“Pai? Onde [...] stá?”
“Em ca [...] você?”
“No mercado, na [...] alta [...] cidade. Está tudo [...] aí?”
“Si [...] O sinal est [...] ruim [...] Me liga se [...]”
A ligação caiu.
E a energia também, breu total.
O mercado tinha um gerador de energia, mas que também não
funcionou.
Passaram-se pesarosos minutos até que caímos na real que a
energia não voltaria, avisei meu amigo sobre o que estava se passando, mas ele
não me respondeu.
Aos poucos, a cidade foi ficando quieta e a chuva foi
passando, sabíamos disso porque o barulho já estava fraco e baixo; então me
lembrei da lanterna, mas não a peguei.
Um carro passou pelo mercado com uma grande lanterna apontando
para os postes e mirou em nós – ficamos ofuscados.
“Está tudo bem aí? Alguém está passando mal ou está
precisando de ajuda?”, perguntou uma voz masculina.
“Não, aqui está tudo ok.”, respondeu um senhor.
E o carro se foi.
Uma criança choramingou no colo do pai: “Eu quero a mamãe...”.
E ele nada fez além de beijar-lhe a testa e dizer: “Vai ficar tudo bem, meu
amor, o papai está aqui.”
Esperamos em silêncio, interrompidos apenas por um som
parecido com um zumbido, vinha de cima de nós e alguém disse que poderia ser
apenas o gerador do mercado tentando fornecer energia.
A lanterna veio em nossa direção novamente. “Talvez esteja
trazendo ajuda”, pensei.
E ela se aproximou mais, e mais. Parou na nossa frente, com
aquele brilho fazendo doer os olhos.
Houve um grande estalo – e gritos.
Todos gritavam e corriam, enquanto homens desciam do carro e
vinham até nós.
Corri para fora, até a escuridão e corri o quanto pude,
tropeçando em coisas, caindo e voltando a correr e, numa dessas corridas cegas,
colidi com uma árvore e senti uma dor lancinante no nariz e o gosto do sangue
na boca – quebrei meu nariz, mas não parei de correr.
Eu já não sabia onde estava, havia perdido os meus óculos; e
então saquei a lanterna e liguei.
Preferia não tê-lo feito.
A rua estava vazia, exceto por pessoas caídas, desacordadas,
com expressões de terror na face. Ouvi passos, e corri.
Lanterna na mão, larguei a mochila na corrida e desci uma
rua que eu não sabia para onde ia; chorei de desespero mas isso só dificultou
minhas visão já limitada.
Parei em um cruzamento, e os gritos e passos ecoavam por
onde quer que eu fosse.
“Lá, peguem ele!”, ouvi.
Corri mais e gritei por ajuda, não havia mais som a não ser
daqueles que me perseguiam covardemente na escuridão.
Foi o término da corrida quando me alcançaram pela lateral,
num ataque bem planejado.
Cai no chão, a lanterna voou para longe, me debati e tentei
me soltar, mas sem êxito – me seguravam na escuridão. Então aquela mão gelada
beijou meu rosto e não me lembro de absolutamente mais nada... Apenas de acordar com uma mulher me chacoalhando e gritando
para que eu acordasse.
Quando a vi, ela estava com uma expressão de choque no rosto
e dizia: “Vamos, levante rápido! Eles vão voltar, levante-se, vamos!”.
Sem pensar corri com ela até um bosque e nos escondemos por
dias a fio, até que as pessoas começaram a acordar desse pesadelo estranho e
sem explicação.
Recomeçamos a vida, devagar e ainda apavorados por tudo que
aconteceu.
Ninguém sabe o que houve.
Não há sinais, não há marcas, não há nada.
Apenas a dúvida do que se passou naquela noite macabra.