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domingo, 15 de abril de 2012

Conto: A Invasão


Acordei como todos os dias, com uma tremenda dor nas costas. Eu nunca consegui entender como e porque eu acordo dolorido e com a sensação de que não estive dormindo, apenas anestesiado.
Fui colocar as coisas dentro da mochila para sair e não me esqueci dos cadernos de anotações, uma caneta preta, minha flauta, a câmera e, por algum motivo, eu peguei a minha lanterna.
Celular no bolso, mochila nas costas e parti para aproveitar o meu sábado de tarde clara.
Fui até a cidade vizinha, andei por todas as ruas que consegui até que percebi as nuvens se tornando cada vez mais escuras e ameaçadoras, então, fui embora.
Já à noite e na cidade, encontrei meu amigo numa praça e subimos juntos ao supermercado, para comer e fugir da chuva que vinha sem piedade.
A chuva começou a cair fraca, no começo, e aumentou gradativamente – então meu amigo foi embora, pois seu pai veio o buscar no mercado e eu esperei a chuva passar para, enfim, ir embora. Mas ela não dava trégua, as rajadas de vento ficavam cada vez mais fortes e a água machucava os corajosos que se aventuravam a céu aberto.
Todos nós, uma multidão de desconhecidos, apertados uns contra os outros no hall desse mercado e então que tudo de apagou, e fez-se silêncio absoluto.
Luz! Voltou, e junto dela as vozes e o alarme, alto e em bom som – algo não está certo.
A chuva ainda martelava o telhado quando a luz dos postes também foi voltando aos poucos, e também quando tudo ficou escuro mais uma vez.
Houve silêncio, tumular, seguido de um grande estrondo no transformador de um poste.
Clarão, no céu, na rua, no mercado – todos hipnotizados – e depois gritaria e correria para dentro do mercado, no mesmo momento em que fui empurrado para fora com mais algumas pessoas. Corremos e acabamos ficando na linha de frente das dezenas de pessoas com expressões apavoradas.
As luzes dos geradores se acenderam e, ao olhar para trás, vi a multidão de olhos arregalados e crianças que choravam, como se fosse a fila do abatedouro e pressentíssemos o fim da linha. E então as luzes voltaram.
O caos instaurou-se na cidade: Estávamos com postes sem luz, áreas inteiras da cidade na completa escuridão e, como se não bastasse, os semáforos pararam, causando um caos no trânsito em frente ao lugar onde estávamos.
Relatei cada acontecimento ao meu amigo, enviando mensagens com o celular, que perdia o sinal com ainda mais facilidade.
Liguei para o meu pai.
“Pai? Onde [...] stá?”
“Em ca [...] você?”
“No mercado, na [...] alta [...] cidade. Está tudo [...] aí?”
“Si [...] O sinal est [...] ruim [...] Me liga se [...]”
A ligação caiu.
E a energia também, breu total.
O mercado tinha um gerador de energia, mas que também não funcionou.
Passaram-se pesarosos minutos até que caímos na real que a energia não voltaria, avisei meu amigo sobre o que estava se passando, mas ele não me respondeu.
Aos poucos, a cidade foi ficando quieta e a chuva foi passando, sabíamos disso porque o barulho já estava fraco e baixo; então me lembrei da lanterna, mas não a peguei.
Um carro passou pelo mercado com uma grande lanterna apontando para os postes e mirou em nós – ficamos ofuscados.
“Está tudo bem aí? Alguém está passando mal ou está precisando de ajuda?”, perguntou uma voz masculina.
“Não, aqui está tudo ok.”, respondeu um senhor.
E o carro se foi.
Uma criança choramingou no colo do pai: “Eu quero a mamãe...”. E ele nada fez além de beijar-lhe a testa e dizer: “Vai ficar tudo bem, meu amor, o papai está aqui.”
Esperamos em silêncio, interrompidos apenas por um som parecido com um zumbido, vinha de cima de nós e alguém disse que poderia ser apenas o gerador do mercado tentando fornecer energia.
A lanterna veio em nossa direção novamente. “Talvez esteja trazendo ajuda”, pensei.
E ela se aproximou mais, e mais. Parou na nossa frente, com aquele brilho fazendo doer os olhos.
Houve um grande estalo – e gritos.
Todos gritavam e corriam, enquanto homens desciam do carro e vinham até nós.
Corri para fora, até a escuridão e corri o quanto pude, tropeçando em coisas, caindo e voltando a correr e, numa dessas corridas cegas, colidi com uma árvore e senti uma dor lancinante no nariz e o gosto do sangue na boca – quebrei meu nariz, mas não parei de correr.
Eu já não sabia onde estava, havia perdido os meus óculos; e então saquei a lanterna e liguei.
Preferia não tê-lo feito.
A rua estava vazia, exceto por pessoas caídas, desacordadas, com expressões de terror na face. Ouvi passos, e corri.
Lanterna na mão, larguei a mochila na corrida e desci uma rua que eu não sabia para onde ia; chorei de desespero mas isso só dificultou minhas visão já limitada.
Parei em um cruzamento, e os gritos e passos ecoavam por onde quer que eu fosse.
“Lá, peguem ele!”, ouvi.
Corri mais e gritei por ajuda, não havia mais som a não ser daqueles que me perseguiam covardemente na escuridão.
Foi o término da corrida quando me alcançaram pela lateral, num ataque bem planejado.
Cai no chão, a lanterna voou para longe, me debati e tentei me soltar, mas sem êxito – me seguravam na escuridão. Então aquela mão gelada beijou meu rosto e não me lembro de absolutamente mais nada... Apenas de acordar com uma mulher me chacoalhando e gritando para que eu acordasse.
Quando a vi, ela estava com uma expressão de choque no rosto e dizia: “Vamos, levante rápido! Eles vão voltar, levante-se, vamos!”.
Sem pensar corri com ela até um bosque e nos escondemos por dias a fio, até que as pessoas começaram a acordar desse pesadelo estranho e sem explicação.
Recomeçamos a vida, devagar e ainda apavorados por tudo que aconteceu.
Ninguém sabe o que houve.
Não há sinais, não há marcas, não há nada.
Apenas a dúvida do que se passou naquela noite macabra.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Venus as a boy

Fico absorto pela maneira da qual você me olha com esses olhos ardendo em chamas. De desejo.
Sinto sua boca se retorcer ao me ver e posso sentir, mas em mim, a pressão dos seus dedos gelados na minha pele sensível.
Tua cabeça vêm até a minha mão certeira e inclina à mim esses brilhantes olhos cinzas; abro-me à você.
Seus lábios nos meus, sua pele na minha e perco meus dedos nos pelos do seu rosto. E é assim que sinto o tempo parar no sonho que passa devagar em minha lembrança, me fazendo perder o fôlego à cada quadro desse filme inacabado.
Deixo meu corpo ir até o seu, tentando, em vão, absorver um ao outro - me encaixo melhor nos calafrios.
Aperto-lhe contra mim mesmo e suas mãos me apertam para você; você me quer e eu te inspiro.
Agora, e somente agora, te inspiro para dentro do meu corpo cansado de lutar contra o seu e seu íntimo dança lado a lado ao meu, de mãos dadas, ligados dos pés à cintura.
Sua respiração ecoa dentro da minha cabeça - ofegante na corrida dos lábios - e devoro-o como nunca o fiz e, tão intenso, seus dedos agarram-me brutalmente, me puxando de um mergulho sem ar.
Você me mostrou grandes dunas claras, lisas como seda e quentes como areia sob o sol e, ao presenciar tal cena, toco suas costas de cima abaixo e agarro-lhe como se fossem gêmeos que deveriam ser um só. Empurro meu corpo contra o seu e seu calor me faz querer chegar ainda mais perto para ver que o seu suor salgado excita os meus sonhos mais tranquilos.
Agora eu sou você e meu grito é a sua voz.
Experimento da sua presença etérea e dou à você tudo o que me mantém.
Flutuo com você - por você.
Me olha com carinho enquanto me carrega nos braços, até o chão frio, para te olhar de baixo.
Ao seu lado, vejo apenas constelações e o céu, escuro.
Levanto a mão para acariciar seus cabelos e sorrir para o seu sorriso.
Tua cabeça no meu peito, minha mãos explorando seu corpo.
Sua boca no meu ombro.
Minha boca na sua orelha:
"Se afogue em mim pela última vez."

"His wicked sense of humour suggest exciting sex."
Venus as a Boy - Björk

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sou um Anti-Herói

Eu sinto medo da maturidade, o medo de envelhecer e de tudo acabar ficando para trás.
Mas "tudo" é tão vago; coisas vão e coisas vem, pessoas vão e pessoas vem... Mas eu sinto medo.
Onde eu estarei?
Me sinto triste em pensar no que me tornei; eu poderia ter feito tudo melhor.
Mas eu dou o meu melhor - pra ver minha marca na vida e a vida marcar meu corpo.
Quanto tempo se passou desde que eu deixei minha forma preferida para trás, mudei tanto. O tempo me pegou de jeito, forte e sem pudor; pensei que não fosse aguentar!
Mas pelo contrário, me mostrei forte, merecedor do meu símbolo mal-interpretado de força bruta e de vontade.
Só que hoje eu estou entregando meu escudo e baixando as minhas armas, sou um ato pacífico.
Não quero guerras, brigas, discussões... Nem lágrimas.
Apenas paz... Paz...
Estou procurando-a à esmo, no escuro, tateando essas paredes lisas pelo musgo incrustado das lembranças que um dia habitaram você e à mim; estou disposto a passar por suas lembranças e absorvê-las por completo.
Mas vou ainda amar, mesmo que entre o musgo haja alguma criatura - ou força - que o faça ter vontade de deitar novamente sobre a maciez encharcada de saudade daquilo que que te agarra o peito.
Ainda que eu tenha que partir e caminhar sozinho até a saída ofuscante dessa caverna escura, talvez escorregando e caindo, vez ou outra, na pedra dura - mas ainda assim eu vou me levantar para um próximo tombo.
Talvez eu quebre algum osso, mas nunca vou saber qual foi, pois o estalo é o mesmo e eu não vou me importar.
Só que... Eu só te peço uma última coisa.
Nunca se esqueça, nem por um minuto, que eu vou estar na entrada e não ousarei por os pés na areia quente.
Eu nunca saio.

E amar é mais que ser feliz, é ver feliz.
Eu posso escrever coisas maravilhosas e egocêntricas, mas eu nunca aprendi a ler.
Eu posso me vestir como um imperador, mas eu nunca vou aprender a me sentar à mesa.
Eu posso tecer redes de pesca, mas eu nunca aprendi a voar.
Então, me escute, eu posso fazer muitas coisas.

Assim como a história do menino solitário da floresta encantada que atravessou todos os mares só porque ele te ama.
Eu posso tentar te fazer feliz, nem que isso custe a minha própria felicidade...


"Se cada um é uma assassino sem coração, esperando pra rir dentro de um camburão com sangue nas mãos."
Delinquentes Belos, Violins